Fornada

 

Descia as escadas com pressa, mas com cuidado, atrasada para o Hospital. Não queria que o barulho do sapato chamasse a atenção dos moradores tão cedo, de manhã. Prédio antigo, no centro, cheio de velhinhos. Muitos até já deviam estar acordados, ouvindo atrás das portas. Velhinhos acordam cedo demais, falta do que fazer.

Uma vez por mês Vera Lúcia visitava a mãe, que vivia praticamente confinada em seu apartamento por conta da combinação de uma artrose com ausência de elevador. Ia como filha, por nostalgia, mas quase sempre quem terminava a visita era a auxiliar de enfermagem, sua persona pública que tomava as rédeas em momentos de constrangimento.  Eram muitos; perto da mãe vivia constrangida.

O prédio era escuro e espaçoso, bem década de 50. Nos corredores largos os acabamentos em mármore, gastos pelo tempo, mostravam a falência do luxo do passado através de camadas sobre camadas de fuligem.

Dona Myrtes andava dando trabalho. Não comia direito, o armário cheio de miojo e salgadinho. Ultimamente não conseguia mais alcançar o pé para lavar ou cortar a unha. A filha só notou porque é boa de dedução. Olhando a mãe de cima para baixo entendeu o porquê dela ter pedido dessa vez um banquinho de plástico.

Mãe: trouxe o banquinho que você pediu. Não vai fazer bobagem e subir nesse banco para limpar os armários da cozinha, hein! Os armários estavam realmente sujos.

Mãe, semana que vem vamos na feira? Comprar umas frutas? Quer que eu traga? Você está boa né? Está tomando o remédio direito?

Tá. Vou indo então! Ce tá bem, né? Então vou indo mãe. Beijo.

Na descida seus sapatos martelavam um barulho seco que tornava intensa a culpa dela ter ido embora muito cedo. Não havia alternativa, os degraus eram de mármore. Para que esse som irritante não existisse seria preciso descer descalça. Inclinou-se para tirar o sapato do pé direito e experimentar o frio que vinha do chão, quando avistou, dois andares abaixo, uma pessoa parada, olhando para o próprio zíper da calça.

Não saia daí, ordenou mentalmente.

O cara parado a fez interromper o plano de tirar o outro sapato do pé, o procedimento de descida e a respiração, paralisando-a em uma posição não natural em um pé só, com o sapato na mão.

Que chato, vou ter que passar por esse fulano. Do ângulo em que estava, na curva da escada do andar de cima, só podia ver o corpo do indivíduo, sem cabeça, semi de costas, parado, olhando para o chão ou para a própria calça. Esticou o pescoço para ver se o seu rosto aparecia. Nada.

Estaria fazendo alguma coisa indecente? Tem cada louco no centro. Ave Maria. Teve que respirar então, pois já estava ficando sem fôlego.

Pela calça é um cara normal. Calça jeans, camiseta branca, sapatênis. Porcaria é isso! Hoje em dia todo mundo pode estar com essa roupa, do Joesley ao nóia da esquina e já são seis e quarenta e cinco. Droga, acho que ele está abrindo o zíper e não dá pra ver o rosto.

Espera, não é isso não. Sai logo daí seu filho da puta, eu preciso ir trabalhar. Ele está muito parado, parece um desses doidos que moram no centro. Espera, os do centro, que estão na rua, se mexem demais, esse está que nem estátua. Não está falando sozinho. Não está fazendo nada.  Pelo menos nada obsceno.

Prendeu novamente a respiração.

A pessoa continuava lá, parada, somente olhando, fixamente, para seus genitais, fechados dentro da calça. Não havia motivo para reprovação ou que justificasse qualquer providência. Ela tinha que continuar descendo, não havia nada ali. Mas, mesmo atrasada,  tirou o outro sapato do pé e lentamente voltou a subir. Mãe, voltei. Onde está aquela caixa de sapato que você guarda as fotos de nós, de quando eu era pequena?

 

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O verão não está querendo acabar, apesar de já estarmos em abril. As águas de março ainda não fecharam coisa alguma e temos enfrentado, em pleno outono, este bafo quente, que tem deixado todo mundo de miolo mole.

Vai ver vem daí a explicação do que tenho visto na rua: o calor derretendo o que restava de sanidade das pessoas.

Ontem à noite havia brisa e uma certa promessa de bem estar. Por isso, deixei o noticiário pra lá, jantei meia caneca de sopa e aproveitei a fresca. Fui andar para apaziguar as pernas.

Da rua vinham, com força, os cheiros misturados de lixo, flores noturnas e cocôs de cachorro “esquecidos” pelas calçadas.

Não tem como não lembrar de uma passagem do meu livro de história do ginásio onde o autor descrevia os costumes, nada higiênicos, do Brasil Império.

Não jogamos mais, pela manhã, o conteúdo dos penicos no meio da rua, mas o cheiro das ruas não nos deixa esquecer nosso grau de civilidade.

Falando nisso, meu bairro, ultimamente, dá mostras frequentes de ter descoberto a necessidade de se expressar.

Nada mais civilizado, ainda que o exercício da cidadania se dê aos berros, ou batendo panelas, do alto de sacadas protegidas por guaritas e pela altura dos andares.

Acho válido. Posso não concordar com o samba mas defendo o direito dele ser cantado.

Eu caminhava, então, com acompanhamento de percussão da cozinha, quando ouvi  o que realmente fedeu.

De um prédio para o outro, senhor e senhora em sua respectiva sacada: ela grita um “não vai ter golpe!” e ele responde: “entra pra dentro de casa, vagabunda. Vai trabalhar vadia, filha da p…”.

Me senti, imediatamente, de volta a um mundo que eu acreditava já ter acabado. O mundo da minha infância; autoritário, machista, militarista e autocrático.

Gente! Presta atenção…não é pra sair fora da casinha!

Tem muita gente cheia de si, cheia de razão.Tão lotados, tão repletos, tão abarrotados de razão que se deram ao luxo de perdê-la, expondo em público o mais vergonhoso obscurantismo.

Está difícil conversar, trocar idéias. Pelo visto, vai ficar difícil até passear no quarteirão.

Por favor vizinhos, não joguem seus penicos na calçada.

Está fora de moda desde o século XVII.

 

 

 

 

 

 

Procurar saber o que fazer com as informações que guardei ontem na agenda do telefone. Este o recado que deixei para mim mesma que já é a agenda da agenda.

O campo com árvores esparsas e uma kombi estacionada bem longe. Crianças que foram se juntando a mim durante a caminhada. Um menino de uns seis anos com cabelo tigela e isso é tudo.

Parecia tão vívido, na hora, que não procurei o papel de anotação. É que com tanta coisa pelo meio… Informações de fora que nunca sei se quero, chegando rápido, mais do que sou capaz de organizar, demorando tão pouco, menos do que o instante necessário para que eu possa me afeiçoar a elas para poder retê-las. E ainda o mundo. Os fatos, imagens, sons das coisas que considero realmente vivas por onde nado em busca de alguma pescaria boa.

O resultado é que corro passando o dedo como quem vira páginas na ânsia de que tudo o que atrapalha saia logo da frente, para que eu possa começar.

Começar o que exatamente?

Estava anotado na agenda. Escrever sobre a casa no interior, ao lado uma oficina de balões com parentes que eu nunca vi. Eles me tratavam como se sempre tivessemos estado juntos. Fazer inventando? uma possibilidade.

Coisa crítica a memória. Ela é sempre por um triz e zomba de ti, criticando sua falta de ordem.

É como um dia foi uma tarde estraviada da rota pela dificuldade de fazer mais tinta, igual a que estava previamente misturada.  Um azul  em excesso, misturado ao amarelo, nunca mais chegou a ser o verde que tinhamos feito antes.

Para reproduzi-lo teríamos que ter tido método, antes, lá no passado. Teríamos que ter apostado que aquele verde com “x” de azul e “y” de amarelo seria o que nos arrebataria.

Não acreditamos no amor antes que ele aconteça. Muito menos em uma cor. Antes eu tivesse tido amor ao método.

 

 

Andam acontecendo coisas estranhas nos últimos tempos.

Como primeira frase de um texto que tenta explicar, antes de tudo a mim mesma, algo ainda nebuloso, algo que ainda não sabemos direito, as palavras acima dizem pouco; menos do que eu esperava.

Estou parada, neste momento, olhando para elas e só vejo dúvidas.

A primeira do tipo semântica: Andam acontecendo coisas. As coisas não andam, não vejo as coisas andando.  No caso em questão,  melhor seria se fosse possível dizer assim:

– Param acontecendo coisas estranhas nos últimos tempos – justamente por causa da natureza da coisa; é parada.

Há pelo menos três semanas o tempo tem parado, com uma frequência crescente e perturbadora.

Quando olho no visor de algum relógio, tem acontecido, muitas vezes – vezes demais – que  lá esteja um horário curioso; congelado em 11:11 h, 15:15 h, 21:21 h.

Como se já não fosse estranho começar a ver horários com vocação para mensagem esotérica eles, além de aparecer, não transcorrem como deveriam. As duplas de números passam mais devagar que o normal, tenho quase certeza. Somente não tive ainda a oportunidade de conferir, com algum método, a proporção da lentidão. Nunca tem outro relógio por perto, para medir quantos minutos a mais dura a passagem daquela dupla no display. Para mim dura uma eternidade. Por baixo uns três minutos. Algo a ser conferido, pois não quero passar por louca.

Nas primeiras vezes dei risada e falei “olha lá, de novo!” . O inusitado era parecido com as bobagens que a gente gosta de manter como superstição, tipo quando tem jogo do Brasil e todo mundo de casa só pode sentar do lado direito do sofá. Ou quando dizemos que “toda vez que encontro o Caio vou encontrar a Rebeca meia hora depois” mas sabemos que, no fundo, isso é mais para a vida ficar charmosa do que para acreditar.

Conviver com um pouco de crendices inocentes nunca manchou a reputação de ninguém. É o tipo de coisa que até um astrofísico pode manter, sem vergonha de ser confundido com os varridos que acreditam em implantes de chip extra terrestre.

Até esses dias eu fui uma dessas pessoas que gozava de credibilidade.  Despreocupada quanto ao futuro e nem aí para os meus pequenos pecados de fé.  Acreditava em trevo de quatro folhas, arruda atrás da orelha, dejá vu, intuição, inconsciente coletivo, tarot, sem que isso pudesse abalar a sólida estrutura da lógica da minha mente.

Hoje, depois que o tempo enlouqueceu, teimando em se apresentar nessa versão “Gêmeos, mórbida semelhança”, ando suspeitando, porém sem ainda admitir: não sei mais no que acreditar.

Tento fazer vir à mente os slogans do Arquivo X, para me acalmar; na tentativa de trazer os fatos para o universo reconfortante dos sustinhos dos seriados americanos, onde tudo acaba sempre igual. Não tem adiantado; de repente “A verdade está lá fora”, “Não confie em ninguém” e  “Eu quero acreditar”, deixaram de causar a coceirinha tranquilizadora. A realidade está diferente de verdade.

As estranhezas começaram devagar, quase imperceptivelmente e considero isso a primeira dica.

O tempo foi encrencando como se uma inteligência oculta tentasse disfarçar seus planos medonhos, nas entrelinhas do layout corriqueiro da vida.

Através de uma porção de ruídos soltos a realidade foi mudando: um dia, você põe o despertador para seis da manhã, enrola um pouco na cama, como de costume, e quando se vira para levantar são 06:06 h.

O farol fecha, você olha para o lado, distraidamente, para o interior da lotérica que, no fim de uma quarta feira está despejando fila pela calçada, e pensa em fazer um joguinho, procura o relógio do carro para ver se dá tempo, se não vai chegar atrasada, e são 15:15 h. Pensa: não vai dar tempo, droga, não vai ser dessa vez ficar milionária mas, espera aí… lá estão os repetidos.

Ligamos o computador e são 18:18 h. Pegamos o elevador rumo ao 13o. andar e são 13:13 h no relógio da moça que está ao seu lado, ela desce exatamente no seu andar, ora!

Dá impressão que você está sendo alvo da brincadeira de Alguém e está preso na armadilha de um ambiente virtual. Talvez sendo, sem saber, o protagonista de um filme de terror Japonês baseado em números.

Números rolando pelo céu, caindo sobre as pessoas. Só que elas não veem. Só eu estou vendo.

E o terror maior, literalmente no final dos Tempos: o relógio em vias de ficar paralisado no horário das 11:11 horas.

Para sempre.

 

 

 

 

 

Amo.

Amo mesmo.

Mas, para somente saber disso, antes mesmo de dizer, precisei de muito tempo.

Precisei de perder muitos juizos

de valor

e outras verdades que não tinham valor nenhum.

Perder cerimônia e ganhar seriedade.

Agora que perdi muito, parece que as posses voltaram, se atiram em mim.

Ganhei você,

que me dá sem medida, sem vergonha

com só um pouco, cada vez mais pouco medo.

Fornada

Portugal aparece e desaparece boiando com as ondas no horizonte, semi encoberto pela borda do barco imaginário no qual me vejo mentalmente.

Sou levada à deriva num bote, ora vendo, ora não vendo o traço linear de terra e cidade, ao longe.

É o ponto de chegada.

Penso alto. Imagino coisas e me emociono ainda que com possibilidades.

São os modos desse ainda “não viver”, um estado de latência que nasce aos montes cá comigo, em meu país, dos momentos de distração, da graça de olhar sem compromisso as fotos de viagem de outros navegantes.

E vai dando uma vontade de ir, que nos dias insossos é  capaz de me tirar da mesa e lançar-me ao mar, ainda que hipotético, em direção ao desconhecido muito familiar da volta às origens.

As viagens dos outros, as viagens dos livros de história, vão mesclando uma colagem  de vidas roubadas aos bocados, à…

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Minha personagem sumiu. A última Ana escorreu pelos meus dedos e não lembro nem onde ela estava no último post nem como era o corte do seu cabelo. Deve ter caído entre as teclas do computador e de lá sabemos que não volta nada. É um vão pior que um buraco negro, apesar do Sr. Hawking ter dito recentemente que eles não existem…então, no meu imaginário de gente que não sabe nada de matemática eles ainda estão lá e é por isso que a expressão “buraco negro” não desgruda do meu acervo. Ele disse e virou bestseller e agora des-disse que a coisa era e sugava tudo o que é matéria fazendo o que existe desaparecer, inclusive a luz, que nem matéria é. Não que ele seja assim tão real quanto um prato de macarronada na hora do almoço mas figurou entre os viventes e não quer deixar de sair desse pedestal junto a outras construções de sentido um tanto fantasmagórico mas que a gente acredita apesar de não ver, como o Id ou o Ego (o Superego já é mais real). E agora que minha crença foi abalada pelo próprio criador, as megas coisas como as galáxias ou os mega conceitos como os buracos negros estão no mesmo baile com os sacis-pereres e loiras do banheiro: se encontrarão quando os paralelismos se encontrarem no infinito. Então eu uso!